Composição e Arranjos Familiares

Se para a maioria dos antropólogos o trabalho parece ser o locus da identidade masculina, a família por sua vez é visualizada como sendo o da identidade feminina (Da Mata, 1978 ; Salem, 1981). Considero entretanto, que as duas categorias, trabalho e família, são importantes para a construção de identidade da classe trabalhadora em ambos os sexos. Mas será que podemos falar de um modelo de família característico das classes trabalhadoras? Ao observarmos as práticas e experiências quotidianas nos encontramos com um variado conjunto de arranjos domésticos.

O tipo de arranjo doméstico mais significativo, estatisticamente falando, na comunidade estudada é o das conhecidas famílias "extensas", formada por mais de um núcleo familiar ou inclusão de outros parentes. Encontramos que 51.6% das famílias viviam em arranjos extensos. Este tipo de arranjo é mais comum e generalizado em etapas críticas pela qual passam a maioria dos grupos familiares tais como: a) entre os jóvens, quando se dá a formação de um novo núcleo familiar e eles não contam com recursos para construir um barraco próprio, assim optam por viver junto aos pais até que estejam mais capitalizados; b)quando ocorrem dissoluções matrimoniais e alguns filhos (com ou sem prole) retornam à casa dos pais; e c)quando estão muito velhos, os pais que não conseguem mais se sustentar são incorporados por seus filhos aos seus grupos domésticos (Salem, 1980; Souza, 1996). As famílias estão inseridas em sua rede de parentesco, que se constitui como um apoio importante.

Obviamente o arranjo nuclear (pai, mãe e filhos) é significativo e aquele considerado como o modelo ideal pela maioria dos indivíduos deste grupo social. 35% da amostra estudada vivia no momento da entrevista em arranjo nuclear puro. Mas se somarmos a este percentual o de aquelas famílias "extensas" que tenham no seu interior arranjos nucleares (ainda que nem sempre o da entrevistada), i.e. a presença dos 2 pais e filhos (acrescentados com outros parentes, e portanto não é mais o modelo nuclear puro), este percentual sobe então para aproximadamente 74% da amostra. Pode-se concluir que em 74% dos lares entrevistados encontrava-se alguma estrutura de família nuclear. A impossibilidade de boa parte dos casos de seguir estritamente o padrão tradicional "puro" deve-se ao desemprego, baixos salários, dificuldade de obtenção de casa própria, instabilidade de uniões conjugais, etc. Estas restrições se apresentam como dificuldades para a realização deste "projeto" e constituem um dos principais obstáculos para que se tenha acesso a este tipo de família. Via de regra, o modelo puro é logrado em determinadas fases maduras do curso de vida das famílias (nem no inicio, nem no final) e em famílias que lograram maior "estabilidade" econômica.

Um tipo de arranjo que vem crescendo significativamente é aquele composto por mães solteiras ou sem companheiro e seus filhos, incluído no arranjo de famílias incompletas (onde falta um dos parceiros ou os filhos). A presença dos lares com a mulher como chefe foi em torno de 21,7%. Incluiu-se neste percentual os 2,7% que não tinham filhos ou viviam sozinhas e os 7.1% de "díades maternas" (segundo a concepção de Woortmann) que, apesar de ter as mesmas características da família extensa (e foram igualmente incluídas em aquele percentual), também têm características de arranjos de mães sozinhas, no caso, em dupla geração). Se tomássemos apenas modelos "nucleares" incompletos teríamos apenas o percentual de 14,3% (ao contrário dos 21,7%) da nossa amostra. O arranjo de um dos parceiros com seus filhos representaram 11,6% da amostra total (de 13 lares apenas 1 era do pai com seus filhos, os outros 12 eram da mãe com seus filhos). Mas voltando à questão das mulheres sem companheiro, ainda que acompanhadas muitas vezes pela sua própria mãe, temos um conjunto de 19% das entrevistadas vivendo em lares deste tipo sem a presença masculina da mesma geração (união) ou ascendente (parceiro da mãe). A falta de companheiro é acentuada se consideramos os dados do estado civil das entrevistadas (que podem estar sozinhas mas vivendo em arranjos onde existem núcleos de outros parentes): 38,2% delas declararam não ter companheiros.

A maior instabilidade nas uniões conjugais da classe trabalhadora, associada à maior necessidade da mulher trabalhar para o sustento do lar, traz conseqüências sobre o modo como se organiza a autoridade no âmbito doméstico. Vários estudos vem apontando serem estas as unidades de maior carência econômica: a chamada feminilização da pobreza (Barroso, 1978; Neupert, 1988; Castro, 1990; Oliveira, 1992; Jelin, 1994; Goldani, 1994). Por um lado, há um crescimento do número de lares que contam apenas com a "autoridade" feminina (ainda que debilitada, devido à ausência dos pais ou companheiros). Por outro lado, o fato das mulheres estarem mais tempo fora de casa, o que resulta em uma ausência física, pode ter também implicações morais, pois sua falta na unidade doméstica pode desencadear em alguns casos um processo de debilitação da imagem de autoridade ou do marco referencial de conduta dos seus filhos (Zaluar, 1985).

Muitas mulheres que vivem neste tipo de arranjo doméstico não avaliam que esta situação seja resultado de uma conquista ou realização de um desejo. Algumas o vivenciam como uma imposição que gostariam de superar. Se pudessem escolher, muitas prefeririam ser "esposas tradicionais" de "homens de respeito" (ainda que isto se refira ao plano das expectativas, difíceis de alcançar mesmo em arranjos nucleares). A "autoridade masculina" tem conotações de prestígio e somente pode ser plenamente exercida em condições em que o chefe familiar tem salário e recursos econômicos adequados para respaldar esse papel. Também não podemos negar, na direção apontada por Woortmann, que para muitas outras mulheres que vivem este tipo de arranjos, mesmo que o sea preço seja uma maior dificuldade econômica, eles podem significar a conquista de um maior espaço de independência e autonomia feminina, a liberdade sexual, o fim de maltrato e casamentos infelizes, como se verá adiante nos resultados dos eventos. De forma geral é muito complicado e redutor analisar "padrões" de comportamento quando na realidade nos deparamos com histórias de vida tão diversamente costuradas e significadas pelos seus portadores. Encontramos na comunidade estudada mulheres de todos os tipos, as que vivem em famílias hierárquicas e estão satisfeitas, as que apresentam queixas em relação ao modelo, as que não lograram este modelo e gostariam de alcanzá-lo e aquelas que avaliam como um progresso, ganho de autonomia e liberdade o fato de estarem sozinhas.

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